Educação da Mente

Temos incrível facilidade em rotular os comportamentos equivocados dos outros e uma inigualável habilidade para apontar os defeitos dos outros, esquecidos dos nossos vícios e hábitos infelizes que tanto desagradam aos demais, principalmente àqueles que cotidianamente se relacionam conosco e são obrigados a nos tolerar em nome da caridade, ou do bom senso, para manter a paz garantindo, assim, uma convivência razoável dentro dos limites possíveis.
Interessante e-mail está circulando na Internet acerca de alguns hábitos dos brasileiros largamente praticados, considerados normais, irrelevantes, a despeito da conduta leviana e prejudicial de que se revestem.
A mensagem, infelizmente verdadeira, relata que muitos de nós estacionamos em calçadas irregularmente, muitas vezes, debaixo das placas proibitivas sem o menor constrangimento; subornamos ou tentamos subornar os guardas de trânsito quando somos pegos praticando infrações; falamos pelo celular enquanto dirigimos; paramos em filas duplas e até triplas, em frente às escolas pouco nos importando se estamos prejudicando o trânsito; egoisticamente violamos a lei do silêncio (que se dane quem tem que acordar cedo e precisa dormir); furamos filas nos bancos e congêneres através das mais esfarrapadas desculpas; espalhamos mesas e churrasqueiras nas calçadas expulsando os pedestres para as ruas; pegamos atestados médicos sem estarmos doentes apenas para faltar ao trabalho e, nesse caso, o procedimento do médico é pior do que o nosso; fazemos “gato” de ligações elétricas, de água e de TV a cabo; registramos imóveis no Cartório muito abaixo do valor de aquisição para não pagar os impostos devidos ou pagar menos por eles; mantemos em nossas empresas o livro Caixa 2 e compramos produtos sem nota fiscal por um preço menor, prejudicando o funcionamento de muitos serviços que dependem desses impostos; estacionamos em vagas exclusivas de deficientes; levamos das empresas onde trabalhamos pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis, etc., como se isso não fosse roubo, etc. A lista continua e seria impraticável reproduzi-la inteira nesse espaço de que dispomos.
O e-mail acentua que, apesar de todos esses deploráveis comportamentos, nós temos a audácia e a petulância de pretender que as outras pessoas sejam irrepreensivelmente honestas e nos indignamos com as falcatruas e escândalos que vemos estampados nas manchetes dos jornais todos os dias.
Com esse raciocínio equivocado nós exigimos das outras pessoas o que nós não fazemos no dia-a-dia. Estranha moral, essa! Nós podemos fazer tudo errado, os outros não. Queremos que os outros se modifiquem, mas nós, não. Nós não precisamos, ou melhor, não queremos nos dar o trabalho de nos reeducarmos porque a educação da mente custa esforço. Um esforço voluntário, consciente e determinado que requer, antes de tudo, inteligência.
Essas faltas consideradas pequenas, sem importância e aceitáveis pela maioria das pessoas são, nada mais, nada menos, do que falhas de caráter abomináveis e perigosas. São elas que nos conduzem às faltas maiores e mais graves tão acostumados estamos em cometê-las, isentando-nos de qualquer sentimento de culpa ou de responsabilidade.
Essa conduta reprovável nos confere rótulos e títulos deploráveis tais como: povo subdesenvolvido, sem educação, inferior, etc. Mas, se naturalmente cometemos qualquer um dos deslizes supracitados é exatamente isso o que nós somos: deseducados, infantis, bobocas, raça inferior e subdesenvolvida. Não temos do que reclamar.
Podemos imprimir novas bases à nossa conduta? Devemos. Basta unir esforço e inteligência para distinguir o certo do errado. Fulton Sheen – arcebispo americano e renomado teólogo – tem uma frase admirável que encerra essa questão magistralmente: ”O certo é certo, ainda que ninguém esteja certo; e o errado é errado, ainda que todos estejam errados”.
Allan Kardec, em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITSMO” – cap. XVII – item 4 – assegura que “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelo esforço que faz em domar suas inclinações más”. Essa é a questão fundamental com a qual nos defrontamos quando o nosso propósito é nos moralizarmos tornando-nos, a cada dia, pessoas melhores, mais desapegadas, mais pacíficas, mais generosas.
Vamos encerrar esse tema que nos é tão familiar transcrevendo o lúcido pensamento de Martin Lutero que diz: “A prosperidade de um povo não depende da abundância de suas rendas, nem da importância das suas fortalezas, nem da beleza dos seus edifícios públicos. Ela consiste no número dos seus cidadãos cultos, nos seus homens de educação e de caráter. Nisso é que está o seu verdadeiro interesse, a sua principal força, o seu real poder”.

.

Graça Vidigal nasceu em Porto Firme, MG. É graduada em Jornalismo pela UFJF. Cursou Francês na Aliança Francesa de Juiz de Fora e Inglês na Cultura Inglesa e Wizard, também em Juiz de Fora. Trabalhou na Imprensa Universitária da UFV – Universidade Federal de Viçosa. Aposentou-se como Auditora Fiscal da Receita Previdenciária, atual Receita Federal do Brasil. Atualmente faz parte do quadro de trabalhadores voluntários da FEAK – Fundação Espírita Allan Kardec, atuando em diversas atividades. Estará colaborando com um artigo mensal para este site, que será postado toda primeira quarta-feira de cada mês.